Onde, quando e como me tornei cristã? - Por Ana Helena Tavares

Texto escrito para a matéria "Fato Cristão" do 1º ano de teologia da FAJE

Aluna: Ana Helena Tavares

Até a minha adolescência, eu entrava num templo católico, na cidade do Rio de Janeiro, fazia o sinal da cruz, com a mão direita, olhando para cima, e avistava a representação de Jesus morto crucificado. Assistia à missa, ouvia o sermão do padre, muitas vezes enfadonho, colocava na boca a hóstia e saía dali achando que aquilo era cristianismo.

Aos 26 anos, porém, descobri que a ritualização faz parte da religião, mas não faz de ninguém cristão. Com essa idade, pisei pela primeira vez na casa de um bispo, imaginando encontrar na casa dele o que eu encontrava na igreja: imagens de santos e cruzes. O bispo era Dom Waldir Calheiros de Novaes, de Volta Redonda (RJ). Logo na sala de entrada, ele derrubou minha expectativa: tinha um quadro na parede com muitos punhos cerrados.

Aqueles punhos, de trabalhadores grevistas exigindo seus direitos, são o marco da minha compreensão do que é ser cristão e do início da minha busca por também ser. Se o povo sofredor que luta por vida digna está de um lado da calçada e os exploradores estão de outro, um seguidor de Jesus Cristo não pode estar em outro lugar que não seja cerrando fileiras com os que são explorados, nem, muito menos, pode estar no meio do caminho.

Até a minha adolescência, aprendi a ter fé em Jesus. A partir dos 26 anos, comecei a aprender a ter a fé de Jesus. Ou seja, tento ser como Jesus, pergunto-me todo dia: o que Jesus faria? Se não consigo fazer o que ele faria, ao menos me esforço para não fazer o que ele jamais faria.

Depois de conhecer Dom Waldir, conheci outros bispos, como Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno, que aprofundaram ainda mais meu entendimento sobre o que é cristianismo. Com eles e com as pessoas que conheci por causa deles, percebi a inutilidade dos bens materiais e aprendi que a terra é uma graça de Deus para todos, sem exceção.

E hoje entendo que isso é ser cristão: viver à semelhança de Cristo, colocar o amor acima de qualquer posse e desejar que todos tenham as mesmas condições de buscar a felicidade.

É muito difícil, sem dúvida. Mas permaneço no caminho porque já não sei viver com outro propósito e porque encontrei companheiros de caminhada que me inspiram. Entre muitos que eu poderia citar, faço aqui uma homenagem ao Frei José Fernandes, frade dominicano que acredita piamente que a paz é fruto da justiça e me contagia com sua disposição de estar sempre ao lado das pessoas sem terra, sem teto, sem trabalho. Fisicamente e afetuosamente ao lado.

“A palavra convence, o exemplo arrasta”, escreveu o filósofo Confúcio. Pelo exemplo dessas pessoas, que seguem o exemplo de Jesus, fui arrastada para o cristianismo. Eu poderia dizer para o “cristianismo libertador”, mas não vou me valer dessa redundância.

Não deixei de entrar em templos católicos, mas os vejo de modo diferente. Sei que Cristo não está morto na cruz. Ele está no meio de nós, estendido nas calçadas, sendo torturado diariamente por poderes opressores e pelos efeitos da crise climática, causada pelo capitalismo, como denuncia o Papa Francisco. Penso que se sou cristã é para contribuir na transformação desse cenário.

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